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7 de abr. de 2017

A Culpa

Nesta semana, passei por três situações "corriqueiras" (no sentido que elas se repetem diariamente):
  1. Durante uma reunião de negócios, um amigo meu disse que dentre várias coisas, o "feminismo é responsável por deixar o mundo meio do jeito que tá aí: confuso, quebrado e cheio de confusão";
  2. Recebi via WhatsApp um vazamento de uma moça, muito bela por sinal. Junto, vinha o post que ela fez na página pessoal do Facebook dela justificando o ato, além de vários outros dados pessoais;
  3. Durante uma aula na faculdade, um professor foi infeliz em dizer que "as mulheres têm culpa em certos comportamentos machistas se perpetuarem dentro de casa" (ok, isso não é lá tão mentira assim, mas o problema é que o enfoque e o tom de culpa introjetada dele foi um prato cheio para qualquer um que deseje qualquer coisa para atacar o feminismo).
De todos estes pontos, só ficou uma certeza:
Em todas elas, eu foi um covarde e me calei. Em nenhum momento eu retruquei, questionei, indaguei, porra nenhuma.
E enquanto isso, nesta mesma semana, uma idosa de 73 anos foi estuprada, um ator global se envolve em uma polêmica de assédio (e gera comentários terríveis de outros atores que tentam "minimizar" o ato) e um famoso cantor também foi pego por câmeras de vigilância mostrando que agrediu a mulher.

Independentemente do grau, fica claro uma coisa:
Meu silêncio mata, agride e lesa tanto quanto aquele que executa na prática.

***

Texto recomendado: toda relação homem-mulher é assimétrica.

11 de nov. de 2016

Olha o RPG!

Quem me conhece sabe da importância que o RPG de mesa tem na minha vida. Fiz (e consolidei) muitas amizades dentro da mesa de jogo, e hoje basicamente o jogo não serve só para contar histórias, mas também uma oportunidade de ver alguns amigos e manter contato semanalmente.

Eu não conseguiria definir melhor a sensação do que é jogar RPG do o vídeo a seguir. Identifiquei muito daquilo que me fez cativar por esse estilo exótico de imaginar e contar histórias nele. Vejam!

4 de nov. de 2016

Guerreiros

Todo dia cedo, quando estou indo para o trabalho, um cidadão me vê perto da rodoviária por onde eu passo e me dá um bom dia.

"Bom dia guerreiro!". É o que ele sempre me diz.

Ele é uma pessoa humilde, vive na rua, creio eu. Já o vi várias vezes na região desta rodoviária, ou perto do coreto, deitado em papelões e coberto por uma manta fina. Ele trabalha lavando carros, ajudando alguns taxistas daquele ponto, em troca de alguns trocados ou comida.

Uma vez me disseram que ele usa drogas (já o vi em estado alterado algumas vezes), e tem uma ferida feia na perna. Vive pedindo ajuda para poder pagar a troca do curativo desse machucado.

Não pede esmola. Pede ajuda.

Se ele realmente usa o dinheiro para esse fim, não posso dizer que sim. Mas posso dizer com certeza que não sou guerreiro assim. Não é questão de comparação pura e simplesmente: não é simplesmente aceitar que esse rapaz e eu vivemos em realidades distintas.



"Guerreiro".

Quem dera eu ser um guerreiro. Falta-me muita coisa para sequer começar a trilhar o caminho do combatente moderno, para conseguir enfrentar o monstro da realidade cotidiana.

Mas pelo menos, tenho sobrevivido a uma batalha por dia. Por trinta anos, praticamente.

Hora então de buscar uma transição do campo de combate. Mudança de tática.

Boa noite, guerreiros.

16 de set. de 2016

Além do felizes para sempre: quatro motivos pelos quais o casamento não compensa

Quando se está em um relacionamento de médio a longo prazo, não tarda os famosos "vai casar quando?" ou "e ae, já pensando no casório?".

Eu namoro há 8 anos, e é quase uma rotina que as pessoas cheguem para mim e pergunte "quando será o próximo passo do relacionamento". Porra, como se isso fosse definitivamente determinante para que mais 8 anos viessem!

Antes que alguém me questione, até o momento, minha namorada também partilha da mesma opinião de não querer casar. Para explicar melhor isso, uma listinha básica de porque eu acho que, na minha opinião, é uma tolice casar:

1. Eu não sou religioso

Pra quê eu tenho que entrar dentro de um templo cujo qual os valores não são relevantes para mim? Acredito que seria muita hipocrisia da minha parte fazer parte de um ritual cujo qual não partilho a convicção só para agradar os outros. Até porque...

2. É tudo muito caro

"Olhe querida, toda essa maravilha que nunca poderemos ficar porque temos que pagar nossa festa!"

Pense bem: com a grana de um investimento de um casamento, eu poderia viajar com ela para vários locais bacanas, conhecer gente nova, ter experiências bacanas ou, pelo menos, equipar bem minha morada com a minha então esposa.

Uma festa razoável aqui na região fica entre 20 e 50 mil reais, e eu sempre achei que fazer festas de casamento é mais para os convidados do que para os noivos em si. Existe uma carga de simbolismo enorme em cima do casório e justamente por isso...

3. Casar é para mostrar para os outros que você se casou

Eu sempre preferi as coisas um pouco mais simples (embora agora na faculdade de Letras me fizeram questionar o o que seria algo "simples", mas isso fica para outro texto"). Toda aquela pompa, aquela coisa bonita, trajes caros, mídia... bleh.

Sabe do quê preciso do meu lado? Dos melhores amigos que tenho e de alguns parentes que considero, além de claro, da Kaiser latão trincando no freezer, uma piscina, uma alcatra assando numa churrasqueira de menos de meio metro quadrado tocando alguma música cuja qual já não consigo mais entender qualé. Saca?

4. O simbolismo pesa

Algemas de dedos?

Talvez, o mais importante dos motivos que me levam a não assumir um casamento seria o fato do peso que o termo possui. Casamento em geral é como se fosse uma nova etapa de vida, avanço, a chegada de uma responsabilidade social que cedo ou tarde viria. Há aqueles que atribuem ao casamento uma possível mudança de vida por parte de um (ou ambos)!

Não concordo. Acho que até por conta disso que muito relacionamento por aí afunda: o excesso da responsabilidade, a cobrança que se tem em cima do termo "casado". Não poderia ser simplesmente duas pessoas que estão juntas de comum acordo? Não poderíamos deixá-las livres dessa cobrança para que o relacionamento possa fluir sem um termo a menos?

***

Enfim, breves motivos, dentre vários outros que ainda poderia discutir aqui, de como eu vejo na minha vida um casamento como parte desnecessária. Naturalmente, esta é uma opinião minha, Mas e você leitor, o que acha?

9 de set. de 2016

Setembro Amarelo: porque é importante sim estar aberto a ouvir qualquer pessoa

No mês de setembro, começa a campanha do Setembro Amarelo: para quem não sabe, é o mês que se desenvolve uma campanha conscientizadora contra o suicídio, além de também promover meios para combater o tabu cujo qual o tema está envolvido. Em 2016, o ponto alto da campanha se dará no dia 10/09, e o tema é abordado no mundo todo. No Brasil, desde veículos tradicionais de comunicação (Estadão e o Jornal do Brasil, por exemplo) a até times de futebol engajam-se no assunto.

Uma pessoa se mata no Brasil a cada 45 minutos; no mundo, uma pessoa tira a própria vida a cada 40 segundos. É muita coisa, incapaz de se passar desapercebido. Inclusive, esta semana um rapaz de 16 nos se matou aqui perto de casa, pulando do quarto andar de um prédio. Uma moça que passava próximo a ele ainda o escutou dizer, antes de vir a desfalecer no asfalto:

Diz pro meu pai e pra minha mãe me perdoarem, tá?

Mas este texto foi feito com um outro propósito. Por esses dias, uma imagem começou a rolar no Facebook. Achei-a muito pertinente: é esta a seguir:


A descrição que acompanhava o post da imagem era a seguinte:

#SetembroAmarelo
.
Esta campanha é de incentivo as pessoas procurarem ajuda de um profissional de Psicologia! [grifo meu]
Setembro Amarelo é um movimento mundial que objetiva conscientizar a população sobre a realidade do suicídio e mostrar que existe prevenção em mais de 90% dos casos. 
O suicídio é considerado um problema de saúde pública e mata 1 brasileiro a cada 45 minutos e 1 pessoa a cada 40 segundos em todo o mundo. 
O movimento Setembro Amarelo é estimulado mundialmente pelo IASP – Associação Internacional pela Prevenção do Suicídio.
Procure ajuda de um Profissional de Psicologia. [grifo meu]
http://www.crpsp.org/site/
http://cvv.org.br/

Achei a imagem muito pertinente e compartilhei. Não tarda, algumas pessoas começam a refutar a ideia, mandando um X de vermelho e criticando justamente o que grifei no texto citado acima.

Não sou psicólogo, embora muitos amigos insistem em dizer que deveria ter sido um. E nunca gostei do termo "conselhos", pois é muito fácil opinar sobre algo que você não está envolvido (sempre preferi falar sobre "o meu ponto de vista" sobre algo).

Mas de uma forma ou de outra, onde quero chegar: às vezes, um papo pode ser a diferença entre a vida e a morte de alguém. Podemos, mesmo sem uma formação formal, pelo menos incentivar uma pessoa com um quadro que pode vir a se tornar suicida a ter uma atitude um pouco mais positiva ou, no mínimo, criar coragem para ir a um profissional especializado.

Nunca serei capaz de substituir um bom profissional para esses casos, mas posso pelo menos, me manter aberto e interessado na saúde mental básica a alguém, indicando aqueles que por sua vez poderiam de fato ajudá-la. Ela precisa saber que é importante, que tem sim um papel neste mundo, e que mesmo que esteja em profunda tristeza, não significa que não há nada que possa fazer.

Sempre há alguma coisa a se fazer sim. E se para essa pessoa minha inbox for útil, assim será.

Quem nunca se sentiu sufocado, a fim de conversar sobre algo só para descarregar aquela coisa ruim? Para fazer isso, é certo que a pessoa confie na outra para fazê-lo.

Fique completamente atento a sinais que uma pessoa que pode vir a se suicidar revela. No entanto, nunca, nunca ignore-a ou faça-a achar que você não pode, pelo menos minimamente, contribuir para fazê-la se sentir útil e importante, necessária, que sua vida interrompida de forma abrupta não será boa para ninguém.

6 de ago. de 2016

Dicionário (im)Pessoal #4

Orgulho | s. m.

or·gu·lho 
(1ª pess. sing. pres. ind. de orgulhar)

Substantivo masculino
1. Manifestação do alto apreço ou conceito em que alguém se tem.
2. Soberba ridícula.
3. Brio.

Fonte da imagem

Definições do Dicionário (im)Pessoal:
1. Sentimento até certo ponto necessário e benéfico, mas facilmente torna-se corruptível e tóxico, corroendo relações e exacerbando propriedades inúteis;
2. Ego exagerado, facilmente ligado à ignorância, rancor e falsidade;
3. Incapacidade de se admitir com um defeito (que geralmente todos já sabem que se tem).
4. Ironicamente, falta de confiança em si próprio.

***
O Dicionário (im)Pessoal são conceitos de palavras corriqueiras mas que, ao contrário do livro tradicional, foge à regra por permitir interpretações diferentes por cada um que leia aquele termo. Fica a pergunta: o que a palavra da vez lhe traz de experiências, memórias ou sensações? Comente!

29 de jul. de 2016

Pensamentos Cotidianos

Estava em um bar hoje com alguns amigos quando uma mulher, em seus 30 anos mais ou menos, apareceu. Bonita e com um corpo dentro dos padrões "socialmente desejáveis", digamos assim. Mas ao invés de contemplá-la, em um estalo, mudei meu foco para reparar como o ambiente à sua volta reagiria com a presença dela.

Exceto por algumas atendentes, todos os presentes no local eram homens, com no mínimo também por volta de 30 anos, alguns uniformizados e indo/vindo do trabalho. Todos começaram a encará-la e reparar insistentemente nos dotes físicos da moça; eu notei isso e também vi que ela, apesar de se claramente notar os olhares todos recaírem sobre si, evitou qualquer tipo de contato visual, limitando-se apenas a interagir com os funcionários. Quando seu pedido chegou, ela o recolheu e foi embora.

Fiquei me perguntando, como em um exercício de empatia, quantos olhares, cantadas e outras banalidades deve ouvir todo dia. Não, não estava com "roupas provocantes" (o que também não dá direito de julgar ninguém), nem qualquer tipo de comportamento "provocativo".

Pensei na minha irmã, na minha mãe. Pensei na minha namorada e amigas,

Pensei sobre mim e minha postura para com algumas pessoas.

***

Momentos depois, um dos rapazes que estavam comigo à mesa disse:
"Namorar alguém tem que ser no máximo por dois anos; mais que isso enjoa e não compensa."
Estou em um relacionamento que vai fazer oito anos. Estou em um loop de enjoo eterno, então? Se eu me cansar, basta descartar? É mais fácil então adquirir uma coisa duvidosa mas nova do que consertar uma velha mas correta?

Novamente pensei, mas desta vez, sobre o comportamento das pessoas sobre ou para mim.

22 de jul. de 2016

Empatias e empregadas

Sabe qual é o problema das pessoas hoje? Falta de empatia.


Não, não é a porcaria de uma "escola sem partido" que vai salvar a educação de alguém - até porque, aos defensores dessa ideia bisonha, desafio-os a mostrar um sistema educacional apartidário e funcional em qualquer lugar do globo e que não seja envolto por um sistema político ditatorial. Pensar incomoda muita gente, correto?


Carecemos de falta de afeto, de empatia, de sensibilidade ao direito de ser do outro, de respeito às decisões alheias, de não apontar o dedo. Mas é hipocritamente melhor atribuir a educação (em todos os aspectos) à figura da escola, ao diploma, ao "mestre", ao "doutor", e esquecer que a formação mais elementar de todas vem de casa, do exemplo dos pais, do ensinamento do respeito, da dignidade como ser humano dentro de uma comunidade. É a típica hipocrisia social, do alívio e transporte da culpa de uma sociedade falida para a primeira coisa que se vem à cabeça. Vive-se dentro do entorpecimento de excessos e bipolaridades, onde só se pode ter uma única visão, e destoar dela é fraquejar seja lá com quem for.


Empatia: palavrinha simples e mágica até, servida acompanhada de respeito e abertura. De carinho, de afago, de abraço, de beijo, de um monte de coisa bonita e bacana, hoje todas largadas de canto.

Ler os depoimentos da página Eu Empregada Doméstica me engasgou. Tenho um épico exemplo de dignidade dentro de casa, e só de imaginar que alguma coisa parecida já possa ter acontecido com essa pessoa já me deixa sem ação, me faz sentir inútil. É por causa dessa pessoa que eu hoje não sou cego, que eu não tive problemas de garganta porque ela correu atrás, ela é quem não me deixou estacionar e me empurrou para frente, mesmo não tendo conseguido metade dos facilitadores que hoje eu tenho.


Empregado doméstico não é sinônimo de vergonha. Nunca foi.

Empatia, galera, empatia. 

14 de jul. de 2016

O encontro

O garoto estava ainda atordoado, ajoelhado, de frente à lápide do finado parente, olhava diretamente para o que estava escrito: o nome, data de nascimento e falecimento e a foto em preto e branco daquele homem que chegara ao fim de seus anos. Claramente o rapaz não aceitava a morte de tal senhor: de alguma forma, e somente agora, ele se deu conta de quão absoluto é o fim de algo que se ama.

Todos que foram ao enterro já tinham ido embora; haviam muitos rostos conhecidos, e outros nem tanto, e aqueles nada reconhecíveis. O entardecer trazia junto da sombra um vento frio, mostrando que o inverno ainda não terminara.

Por que ainda choras, rapaz? — uma voz estranha, quase cadavérica, surgiu próximo do garoto. Assustado, ele olha e vê um cidadão de meia-idade, trajando roupas finas, embora um pouco fora de moda, talvez. Tinha barba muito bem feita e cavanhaque pontudo, um bigote peculiar, cabelo e olhos negros feito carvão e um ar de ironia. O homem toca de leve o ombro do rapaz.

Cemetery Sundown
O garoto estranha um pouco: era impossível este homem ter chegado ali sem que ele visse, já que o túmulo fica em cima de uma colina, e o único caminho disponível era aquele cujo qual o rapaz estava de frente. Voltando a si, o ele comenta para o exótico homem:

— Porque perdi um parente muito querido. Todos ficam tristes quando perdem algo que gostam muito.

Ora, isso não ser novidade para ninguém — fala pacificamente o estranho, enquanto massageia os pelos do cavanhaque. — No entanto, sabes que a morte ser inevitável, então por que insistes em chorar?

O garoto fica maus confuso ainda, Quem diabos é esse cara que acaba de chegar e fica com esse papo agora? Não saberia ele respeitar o momento de dor alheia?

— Olha meu senhor, lidar com perdas é muito complicado. Estou em um momento difícil, e o senhor parece querer caçoar de mim... Respeite minha dor, por favor.

— Meu rapaz, não precisar ficar assim. Apenas acho engraçado vocês, que comemoram o nascer das coisas e se entristecem com desfazer delas, como se fossem absolutas. Tudo vem e vai. Não ser nada separado uma da outra; ambas fazer parte de um longo... processo.

— Quem é o senhor, para vir aqui me dizer isto? Conhecia meu parente?

O garoto estranha muito a fala do senhorio. É um pouco confusa, errada, com graves erros de concordância, mas passa uma firmeza sem igual. O estranho homem olha diretamente nos olhos do rapaz, solta um leve sorriso de canto de rosto e diz:

Eu conhecer seu parente, você, os que já se foram e os que virão, jovem. Eu vir aqui lembrar você de aproveitar o tempo que lhe resta, igualando o que se foi com que ainda fica. Vós perdestes muito de sua energia dedicando a coisas ruins e lembrar de coisas que já se foram, que não há nada mais o que fazer... Memórias ser coisas boas, mas podem lhe atrasar, ofuscar os olhos em virtude de tudo que a vida proporciona graças a uma finada sensação que tu insistes em ressuscitar. 

Lauren Hill Cemetery
"Lembre-se: você está aqui para viver. Para experimentar, arriscar, chorar, divertir, mas no fim, viver. O que há na morte é outra história, morra e descubra. Até chegar sua hora, ame, odeie, comece, termine, respire, inspire, brinque... Pois, pense: hoje subiste este morro para chegar até aqui, e haverá o dia cujo qual você nem de longe isso conseguirá, e depois desse dia, outro dia cujo qual será aqui repousado por muitas ou poucas pessoas. Você tens medo de roubar aquele beijo, pedir teu aumento no trabalho, de puxar papo com a rapariga... Pois não deveria, sabes? No fim, e apenas no fim, descobrirás que muito do que fizeste foi perda de tempo, e um outro punhado de coisas que deixastes para trás por medo de fazê-las lhe será tomado como um vazio. Vivas, meu rapaz, vivas. A cada aniversário, a cada ano, mais e mais estarei perto de ti e de surpresa tomarei o que é meu."

Assustado, o garoto olha para o túmulo do parente finado. Ao voltar o olhar, não vê mais ninguém. Teria sonhado? Não... Claramente não. Era real: o toque, a fala errada, o cheiro do tal homem... Não foi um alerta, e sim um conselho; e por mais misterioso que fora o encontro, o rapaz nãos sente medo.

Ele se levanta, limpa seus joelhos e desce pelo caminho entre covas abertas, jazigos e túmulos. A noite quase que chegara completamente. Mas pensando, na verdade, o raiar de tudo apenas começara a despontar.

8 de abr. de 2016

Dicionário (im)Pessoal #3

Respeito | s. m. | s. m. pl.

res·pei·to 
(latim respectus, -us, .ação de olhar para trás, .espetáculo, atenção)

Substantivo masculino
1. Sentimento que nos impede de fazer ou dizer coisas desagradáveis a alguém.
2. Apreço, consideração, deferência.
3. Acatamento, obediência, submissão.
4. Medo do que os outros podem pensar de nós. = RECEIO, TEMOR


Definições do Dicionário (im)Pessoal:
1. Ser capaz de ter empatia pela dor do outro, mesmo quando ainda não tiver tido a experiência de senti-la (o que ainda complica as coisas, porque a dor de um não remete ao outro diretamente);
2. Saber que a zoeira de fato não tem limites (e nunca terá [in]felizmente), mas tem hora, o que a diferencia do mau gosto propriamente dito;
3. Manter uma discussão civilizada dentro dos moldes aceitáveis e adultos, independentemente do grau de instrução dos envolvidos;
4. Admitir que o diferente de você, dos seus gostos, o que você veste ou calça, nada disso tem relevância sobre a integridade física e psicológica de alguém;
5. Admitir derrota, mesmo que ela soe como perda apenas para o nosso ego, que se recusa veemente em acreditar que é inabalável e dono da mais absoluta verdade.

***
O Dicionário (im)Pessoal são conceitos de palavras corriqueiras mas que, ao contrário do livro tradicional, foge à regra por permitir interpretações diferentes por cada um que leia aquele termo. Fica a pergunta: o que a palavra da vez lhe traz de experiências, memórias ou sensações? Comente!

25 de mar. de 2016

Remédios

Enquanto ia para o trabalho essa semana, vi duas pessoas de idade, ambos com aparentemente setenta anos, um homem e uma mulher, conversando sobre saúde e remédios. Aparentemente já eram conhecidos de longa data (mas não com um relacionamento), e caminhavam com a limitação comum da idade.

Eu passava próximo a eles, e escutei o seguinte diálogo:

— Eu parei de tomar meus remédios — diz o homem.
— Por quê?
— Quanto mais remédio eu tomava, mais fraco eu estava. Tomava um remédio para cuidar de uma coisa, piorava outra. Arrumei um que agora tem me feito bem melhor agora.
— Qual?
— Caipirinha.
— Mas você não estava podendo beber...
— Nem estou podendo mesmo. Mas azar.
— Faz isso não homem. Pode te dar problema aí...
— Ah, azar. Já estou velho demais para ficar dando dinheiro pra esse povo que só quer ver a gente doente e ganhar em cima. Arrumei uma pinguinha aí, uns limões e sal, e mando pra dentro na hora do almoço. Fico bem, relaxado, nem preciso exagerar. Até a dor na perna sarou. Minha filha não gosta, mas eu não estou nem aí, é só um pouquinho por dia. Tenho me sentido realmente bem mais disposto, tanto por pegar e fazer um negócio que muito tempo não tomava quanto pelas lembranças que isso me traz.
— Uai, vou tomar uma co'cê lá...
— Vamos lá, sô. 'Cê vai ver a diferença que é.

E assim fui para o trabalho, com a boca seca para tomar minha caipirinha do dia.

5 de mar. de 2016

Porque um alienígena nunca visitaria nosso planeta

No dia primeiro de março de 2016, dois astronautas retornaram à terra depois de quase um ano no espaço. Ao chegar à Terra com uma nave de transporte soviética, percebeu-se um pequeno áudio nos arquivos de gravação, com uma mensagem decodificada desta forma:

“Olá terráqueos. Vemos em vocês uma imensa curiosidade em saber de nossa existência, se realmente somos criaturas cinzas, baixas e de olhos grandes, se gostamos ou não das mesmas coisas; infelizmente, tão cedo ficarão à sombra da dúvida, pois quase não temos mais interesse em fazer qualquer contato com seu povo. Em suma: não vemos motivos quaisquer para nos revelar e interagir com seu planeta.

Até gostaríamos mesmo de poder unir nossos conhecimentos em um só, e formaríamos uma comunidade intergaláctica avançada em todos os sentidos. Mas, observando-os, chegamos à conclusão que vocês mal gostam do seu chamado Planeta Azul, pois não têm o mínimo de respeito com este lugar que têm como lar. Vocês destroem tudo em prol de uma coisa tão subjetiva que denominam como “dinheiro”, desfazem o equilíbrio natural e se vangloriam disso, matam seu semelhante – mesmo que ele tenha patas em vez de pés – como se fosse apenas mais um. Vocês precisam entender que nada dura para sempre, e mesmo vocês um dia saberão, às duras penas, que trocar o azul de suas águas e o verde das matas pelos tons frios de seus ‘dinheiros’ não terá valido a pena.

Pior: vocês perdem tempo menosprezando suas mulheres, aquelas que fazem o mais nobre trabalho de todos, que é continuar sua espécie. Desdenham de sua luta por direitos igualitários entre si, e as têm como posse e objeto qualquer de desejos temporários. Zombam de suas inconstâncias, e depositam nelas culpas que não tiveram. Tolos.

Vocês preferiram se vender a viver. Entregam suas almas a obrigações enfadonhas, e aguardam como se por um milagre para que o amanhã seja diferente – e nunca é. Claro, porque nem de longe, muitos de vocês não são resultado daquilo que sonham.


Digam-nos: quando foi que pararam para ver a beleza do desabrochar de uma flor após uma chuva? Já tem muito tempo que fecharam os olhos e se deliciaram em ouvir sua música preferida, certo? Cada um de vocês teria certeza em nos responder qual seu maior prazer na vida? Quando foi a última vez que fizeram desenhos estranhos com nuvens em um céu azul? Sabem nos dizer de qual animal gostam mais (nosso preferido são as corujas!)? Possuem inspirações para escrever muito mais, poderiam incentivar a educação do seu povo...

Ficamos tristes quando vemos vocês trocarem suas vidas reais pelas virtuais, como se tivessem um escudo para preservar suas intimidades. Quando são impacientes com pequenas coisas que poderiam aprimorar sua percepção ou aumentar seu contato, como a demora de um ônibus a chegar, as pessoas que tocam músicas que você não goste, vocês perdem uma boa dose de empatia e conhecimento do outro. Ficamos felizes quando discutem calorosamente mas conseguem resolver-se valendo da razão e sem brigas. Quando se questionam “quem é você” em busca de um aperfeiçoamento pessoal, quando fazem coisas loucas tipo pular de paraquedas, quando a essência da liberdade vence e se faz respeitada, quando, dentro do bom senso, vivem como se fosse seu último dia, como se o mundo fosse acabar amanhã.

Enfim, queremos que saibam que não somos prepotentes ou de fato superiores. Apenas temos certeza que muitos dos seus problemas são facilmente resolvidos com um diálogo sensato e organizado. Só isso. Pensem e façam sua parte. Porque infelizmente, para nós aqui, quando poderíamos ter feito tudo isso, não fizemos, e agora pagamos o preço perdendo nosso lugar da mesma forma que vocês estão fazendo com o seu e vagueamos, como parasitas, de um cosmo a outro em busca de esperança, que diminui a cada estrela que cruzamos, a cada planeta deixado para trás.

Não repitam nossos erros.”

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Texto originalmente escrito para a disciplina de Escrita e Criatividade do curso de Letras/UFSJ, cuja premissa tinha como base pegar frases aleatórias e juntá-las de forma conexa.

24 de dez. de 2015

A culpa é da criança!

Enquanto ia para casa, no meu horário de almoço, passei por várias pessoas sendo que a maioria delas eram crianças. Apesar de estar um tanto quanto distraído, não pude deixar de ouvir de uma mãe a seguinte expressão (embora não sejam exatamente essas palavras, mantenho-me o mais fidedigno possível com o teor da mensagem):
"A gente vê umas barbaridades que acontecem com crianças, mas tem hora que eu mesma penso em fazer uma besteira. Criança deixa qualquer um doido! É umas coisas que acontecem que a gente acaba vendo que no fundo, algumas coisas têm motivo para ter acontecido."
Ora ora... Quer dizer então que a criança é culpada simplesmente... Por ser criança? É justificável espancar alguém — alguém com meros cinco ou seis anos de idade — simplesmente por ser desobediente? Aliás, essa tal desobediência, não deriva do fato dos pais, quase sempre, faltarem com noções básicas de respeito, imposição gradual de limites, ser a referência que norteia aquela "folha em branco" que toma forma dia após dia?


Não psicólogo nem pedagogo, apenas um observador às vezes irrelevante dos fatos que acabo vendo aqui e ali. Mesmo que essa mãe tenha dito o que disse apenas no calor do momento, eu ainda acho que isso é preocupante: se em um momento simples ela pensa essas coisas, será que numa dada situação crítica, ela realmente não poderia ter uma atitude inumana? Não é questão de exagero; as pessoas são imprevisíveis, e elas só se dão conta disso quando a situação realmente está crítica.

Mal da geração Y? Gradual incapacidade dos pais serem pais? É torcer para a coisa melhorar, senão...



5 de dez. de 2015

Bipolaridades cotidianas

Essa semana, eu estava indo para o trabalho quando eu vi uma moça, muito bonita por sinal, em trajes de academia (embora muito discretos) seguindo tranquilamente pela rua. Um rapaz passou de moto, e me surpreendeu a quantidade de "elogios" que fez à mulher; embora eu não tenha sido capaz de entender por conta do capacete que ele usava e da distância, claramente eu vi que de elogio não tinha nada. A moça meio que se fechou, e procurou nas músicas que ouvia uma distração qualquer para aquilo que ela tinha ouvido e e ignorar a tolice que o cidadão tinha lhe dito.

O rapaz, ao passar por mim, me olhou com uma cara claramente satisfeita (como se tivesse salvado alguém), mas como eu o encarei com desaprovação, ele mudou a expressão para algo do tipo "e daí, ela gosta disso". E foi embora.

Isso me deixou triste. Não é a primeira vez que isso deve ter acontecido com essa moça — nem com várias e várias outras mulheres, rotineiramente —, mas eu sempre me pergunto: esse cara gostaria que fizessem isso se fosse uma filha, irmã, namorada ou noiva dele? É tão difícil se colocar no lugar do outro? Melhor: é tão complexo ter respeito pelo outro?


Isso foi na terça, bem cedo. Durante a semana, vi isso se repetir de forma muito clara, apenas de métodos diferentes, em vários locais, movimentados ou não.

Desanimei da humanidade mais uma vez nessa hora.

***

Fui buscar uma cartinha de criança para apadrinhar nos Correios aqui da cidade, ontem, sexta-feira. Passei no trabalho de uns amigos meus, arrastei dois caras comigo fomos na agência dar uma olhada. O atendimento foi rápido:

— Bom dia. Gostaria de saber se preciso enfrentar fila para ver algumas cartinhas de crianças, para o Natal.


— Bom dia senhor. Precisar precisa sim, mas não há necessidade mais, porque todas já foram apadrinhadas.

O moço sorriu, satisfeito. Deu pra ver na expressão dele uma certa satisfação, como se estivesse fazendo parte de um projeto bacana e útil para todos. E como de fato era: como não se sensibilizar quando você pega uma cartinha e uma garota de sete anos pede pão com mortadela e coca-cola para ela e a irmã? Ou outra, de um rapazinho de seis, querendo carne com batatas? Ou ainda, uma menina de cinco, querendo ganhar arquinho de cabelo e esmalte, porque "não se sentia bonita como as coleguinhas"?

Fiquei surpreso, e feliz. Muito feliz.

Reapaixonei-me pela humanidade mais uma vez nessa hora.

19 de dez. de 2014

Cinco coisas que os (velhos) jogos de videogames me ensinaram para a vida adulta

Fato: seja numa mesa de bar, na casa de alguém ou perambulando na rua, basta alguém comentar de algum jogo antigo que uma enxurrada de opiniões começam a pipocar de todos os lados. E foi pensando nisso, já que sempre presencio este tipo de assunto, que me veio em mente de escrever como eu acho que os jogos das gerações antigas foram muito mais benéficos para mim que os atuais - sem qualquer tipo de menosprezo, claro, até porque, muita coisa de hoje eu não joguei.

1. Aprender a se virar sem instruções de qualquer tipo

Pegue a maioria dos jogos de SNES, Mega Drive, Master System ou PSX: quais deles tinham algum tipo de tutorial lhe explicando alguma coisa, qualquer coisa, desde os comandos mais básicos aos mais complexos?

Certo, certo. Há sim alguns jogos que lhe oferecem algum tipo de instrução elementar, mas na maioria das vezes, bastava colocar o jogo no videogame, esperar carregar, apertar Start e mandar ver; mesmo aqueles que tinham algum meio de ensiná-lo a jogar também não era necessariamente simples. Em poucos minutos, você já se via em meio a tiroteios frenéticos ou aventuras cabulosas e terrivelmente difíceis.

Era uma época que sem Internet, ou você conseguia ajuda com alguém que já passou por aquela parte do jogo que você está agarrado ou conseguia uma revista lhe descrevendo passo-a-passo o que fazer (os famosos detonados). Ou seja: você se virava.

E sem discussão.

O vídeo abaixo é um dos meus preferidos. É grandinho, mas mostra exatamente o ponto da coisa usando a série Mega Man como exemplo:


Quantas vezes você já zerou um jogo e descobriu só mais tarde que havia um comando ou habilidade que, se soubesse na época, facilitaria (e muito) sua jornada? Assim também não funciona rotineiramente no trabalho, no social, na família, no ato de aproveitar oportunidades que surgem do nada?

E foi assim que aprendi a levar a mecânica gamer old school para minha vida adulta: as pessoas vivem te ensinando as coisas - muitas vezes de forma errada - e você só de fato aprenderá o que e como fazer na prática, no calor do momento. Não é culpa delas (sempre), mas não necessariamente o que elas fizeram que deu certo também dará para mim. Sem muita conversinha: ou aprende e se adapta ao contexto ou fica para trás, o que nos leva ao ponto de que...

2. Tudo é uma dificuldade constante

Muitos jogos antigos não tinham sequer opção de escolher alguma dificuldade. Às vezes, no máximo, você ia nas opções do jogo e aumentava suas vidas por lá e só, o que nunca garantia necessariamente que você sequer chegaria ao final: quem jogou R-Type ou Darius, aqueles joguinhos de nave de scroll lareral sabe bem o que estou dizendo.

Darius Twin: joguinho porreta de difícil já na primeira fase

Não que os jogos atuais sejam fáceis, mas naquela época, até por limitação técnica, muitos segredos e a própria habilidade do jogador influenciavam em muito para que ele chegasse ao fim de um game. Era preciso reflexos rápidos, atenção e muita perspicácia para perceber aqueles píxels levemente de cor diferentes ali estão indicando uma parede oculta. Pegue Mega Man 1 e 2 de NES (quando ele nem carregava o tiro) ou Crash Bandicoot de PSX (para conseguir todas as gemas) por exemplo.

Contra III: como descabelar um jogador de tanta raiva

Sem save states de emulador, no máximo alguns continues. E a tela de Game Over era muito, muito frequente de se ver.

Não muito diferente, se for pensar, do meu dia a dia. Claro que eu sempre tento arrumar um jeito de fazer as coisas da forma mais simples possível, mas como quase nada depende da gente, não adianta "xingar os controles ruins": ou você se vira com aquilo que tem, ou pode desistir para que outro jogador entre no seu lugar.

É aquele caso: apesar de tudo ir contra, não vou saber como o jogo termina se não continuar, mesmo aos poucos, avançando pelas fases. E assim funciona na vida em si.

Mas a dificuldade de tudo é agravada ainda mais porque, no meu trabalho rotineiramente os...

3. Recursos são escassos

Até hoje eu tenho a mania de enquanto estar jogando alguma coisa, economizar o máximo de recursos possíveis, mão-de-vaca mesmo. Aprender a gerenciar e tomar decisões dentro de um cenário de jogo é muito importante, tanto para poder evitar um problema quanto para sanar os danos dele caso irremediavelmente ele aconteça. Pegue Sim City, com as catástrofes que acontecerão em sua cidade lindamente construída e você tem exatamente o quanto é importante se preparar para momentos de necessidade.

Não é a toa que os gamers são geralmente bem sucedidos por conta de suas habilidades dentro de um cenário empreendedor.

Quem jogou os jogos mais antigos da série Resident Evil ou Silent Hill sabe como é importante saber carregar itens certos na hora certa.


Starcraft, Warcraft, Age of Empires, Command & Conquer... Jogos de estratégia militar que também utilizam gerência de recursos e rápida ação do jogador antes que seja dominado pelo exército rival. Top Gear eu sempre pegava o carro branco porque ele consumia menos, e ainda me lembro das melhores pistas que ele não precisa parar para abastecer.

Saber gerenciar alguma coisa - talento de pessoas ou suprimentos de qualquer tipo - é imprescindível na vida de qualquer pessoa que tem fontes de recurso restritas. Em geral, meus amigos e eu não ganhamos relativamente bem para nos sustentar e depender minimamente possível de nossos pais, mas ainda assim temos que pensar duas vezes antes de gastar a mais em um determinado mês para não sobrecarregar os outros. No trabalho, no meu especificamente, normalmente as ideias que os clientes tem para criação de materiais gráficos não casam com orçamento que eles dispõem. Há quem trabalhe com muitas pessoas, que precisa ainda organizar os respectivos talentos e egos para que a equipe dê resultado. Tudo que, por fim, está ligado a atitude de...

4. Valorizar relações

Pegue os excelentes RPG's antigos: Final Fantasy (até o X de PS2), Dragon Quest, Chrono Trigger/Cross, Legend of Dragoon, Terranigma, Grandia... Se puder jogar algum deles, perceba a interação que existe entre os personagens.

Pegue meu preferido, Final Fantasy III (o VI no Japão). Veja os objetos de cada personagem, a relação de amizade e amor, a importância da família e dos amigos em momentos de crise, e você terá, mesmo dentro daqueles pixels simples, um valor pelo humano tão grande que você se sentirá falta daquilo no seu dia a dia. Quem não jogou ainda sugiro jogar e descobrir a missão de Locke, a relação de Shadow, Relm e Stragos, a decisão de Sabin em abrir mão de ser príncipe enquanto seu irmão Edgar teve que assumir o trono, a cena triste da tomada do castelo do cavaleiro Cyan...

Celes na cena da Opera House. Veja a cena completa aqui

São jogos que muito além de serem simplesmente jogos, mostrava relações crescentes do decorrer do jogo - assim como as nossas, na vida real, com as pessoas que conhecemos e depois nos tornamos amigos. Todo um curso em prol de um bem maior somente é necessário quando todos abraçam a causa, já que...

5. Quando bem feitas, ideias se tornam inspirações para outras que surgirão posteriormente

Se você acha que jogos antigos são sinônimos de coisas ultrapassadas, basta olhar essa lista aqui, aqui ou aqui e ver a quantidade de jogos da velha guarda existem nelas. Claro que listas são muito parciais, mas as coincidências

Coisas bem feitas duram. Tem valor, são respeitadas e tem seu lugar garantido dentro do seu contexto.

Nos videogames não poderia ser diferente, claro. Perceba que até hoje, mesmo com tanta evolução gráfica, boa parte dos times de programadores tem sua inspiração baseada em pérolas de dez, vinte anos atrás.

Pense rápido: você é capaz de dizer ou o nome do personagem ou do jogo que ele participa?

Selecione o texto entre as aspas para saber quem é este personagem: "Nathan Drake, da série Uncharted"

Mas certamente, mesmo que você não seja um gamer, quase saberá o nome deste aqui:

Selecione o texto entre as aspas para saber quem é este personagem: "Ryu, de Street Fighter"

Bônus: o poder da interação social

Só como adendo, ao contrário dos jogos de hoje, antigamente era necessário que dois ou mais jogadores estivem ali, ao vivo e a cores, para jogarem juntos. A zoação, diversão e a o valor disso naturalmente é uma coisa que Internet alguma pode oferecer.

Até hoje, meus amigos, minha namorada e eu nos encontramos para jogar alguma coisa - e quase sempre, acabamos por estar jogando alguma coisa antiga, mesmo com nossos poderosos consoles de última geração.

Os melhores jogos de XBOX por exemplo são aqueles que usam o Kinetic, e mesmo assim, grande parte deles só quando se tem alguém para jogar junto.

E em um mercado competitivo como hoje, saber respeitar diferenças mas também ter habilidade em interagir ao


***
Games não são simplesmente entretenimento eletrônico - não somente na essência. São poderosas formas de desenvolvimento para crianças e adolescentes e até salvam vidas (aqui, aqui ou aqui). E eu sou muito feliz por ter tido a oportunidade de pegar essa geração antiga e entender que hoje, ter muita coisa que eu tenho, foi graças aos videogames lá da minha adolescência que auxiliaram este processo.

E vamos jogar, galera!

5 de dez. de 2014

No lixo

Jonas certamente estava na pior. De todas as brigas que se metera, esta sem dúvida foi a mais grave. Largado na sarjeta perto da sua casa, sentia as costelas doendo e tinha um grave corte na testa, que sangrava até o olho esquerdo lhe tirando toda a visão deste lado.  Tentou por duas ou três vezes se apoiar nas paredes imundas para ficar de pé, e quando finalmente conseguiu, sentiu dores na sua genitália. Não queria se lembrar do que aconteceu, embora invariavelmente recordasse cada frame.

Uma das últimas coisas que ainda poderia chamar de sua - seu próprio corpo -, já não lhe pertencia mais.

Tinha vontade de chorar e não podia. Quem ia acreditar na sua versão? Bem, um ou outro amigo ia dizer para que tomasse uma providência ou procurasse a polícia, mas no fim das contas, terminaria tudo do mesmo jeito. E pior: ao chegar em casa apanharia de novo, ou na melhor das hipóteses, sofreria uma agressão surpresa quando fosse trabalhar ou estudar, quando achasse que já estava se esquecendo de tudo que passara e as coisas voltando aos eixos.

O rapaz tinha medo de tomar uma decisão sobre o que fazer. Na verdade, ele nem se lembra de quando foi a última vez que pudera tomar uma por si só: era sempre julgado, sempre qualificado moralmente pelos mais fúteis motivos. O relacionamento em que estava no momento foi o pior deles nesse ponto, porque não fazia nada, nada mesmo, sem o consentimento do outro lado.

A violência sempre fora uma constante em sua vida. Quando pequeno, era obrigado a se portar de acordo com o que queriam, e cresceu com várias dúvidas sobre si mesmo, sem que tivesse confiança sequer em procurar saná-las. Foi na internet que conseguiu algumas respostas, mas já era meio tarde: viu que amigos e colegas se portavam diferente do jeito dele e às vezes eram até mais livres, embora sofressem também uma carga de repreensão explícita e eram vistos como escandalosos pelas outras pessoas.

Jonas às vezes até tenta lutar contra isso tudo, mas nada dura mais que alguns dias. Até porque tudo que ele sofre não é só dentro de casa: é normalmente menosprezado no trabalho, no trânsito e até quando precisa pegar um metrô ou um ônibus.

As pessoas pensam que violência é dar um tapa na cara, um tiro, assaltar, sei lá. Mas no fim das contas, violência é você deixar de ser si mesmo, certo? Ou então, deixar de contar para aquele carinha que ele lhe deu troco a mais, ou furar uma fila, ou ainda ficar com um produto que chegou em sua casa por engano...

Mas fazer o quê, era um trapo humano, com o orgulho em frangalhos e a humilhação marcada na pele. O resto é resto: é se arrastar até em casa e torcer para que amanhã as dores estejam menos latejantes para poder ir trabalhar amanhã.

A vontade de chorar ainda não passara.


- Demorou, Jonas - ouve-se o som de uma lata de cerveja sendo aberta.

O som da TV quebra o silêncio do local.

- Desculpa meu bem, estive...estive m-me recompondo.
- Será que não foi encontrar alguma colega sua?
- C-claro que não... Você está com meu celular inclusive...
- E quem garante que você não pode fazer nada sem celular?
- M-mas eu juro, não fiz nada... E-estava onde você me... Me deixou agora a pouco.
- Você está horrível. Vá lavar essa cara e se arrumar.
- T-tá bom.
- Você é meu namorado, e deve se portar como tal. O que os outros vão pensar de você se ficarem vendo conversando com outra mulher à noite por aí?
- N-não vão gostar...
- Certamente, e eu menos. Meu bem... Você sabe que eu te amo e me preocupo com você... Às vezes passo dos limites, admito... Mas é para o seu bem.
- Sim, eu sei...
- Pois é. Desculpa por ter agido assim... E ter lhe acertado tão forte.
- T-tudo bem.

O rapaz sobe e vai até o quarto, de olhos marejados. Olhando-se no espelho do banheiro, ele vê seus machucados e entende que é fadado a viver assim. Se sente um lixo total, mas alguma coisa lhe faz ir pra frente. Talvez, Deus...

- É a mulher que eu amo... Eu acho. E como ela mesmo disse, se eu largá-la não vou encontrar mais ninguém...


***
Achou um pouco estranho esse texto? Veja só: de acordo com um estudo que saiu essa semana, 68% dos jovens brasileiros de idade entre 16 e 24 anos acreditam que mulheres não deveriam ir para a cama no primeiro encontro, 76% criticam o fato delas terem vários ficantes, 48% acham errado dela sair sem a companhia do namorado ou ficante, sem contar a grande parcela delas que tiveram de desfazer amizade ou tiveram sua privacidade violada por conta de um namorado ou ficante.

Ou seja: a pesquisa mostra que o jovem brasileiro reconhece que o machismo existe, mas ele pouco ou nada faz para combatê-lo. E pior, se acha no direito de tomar para si a liberdade do outro, mais especificamente, da mulher. Ciúmes? Antes fosse...

E ainda tive que acompanhar nesses dias,
Em pleno 2015.

Não, não sou um militante feminista, nunca fui. Na verdade, na minha opinião, a grande maioria dos movimentos feministas hoje estão completamente descaracterizados, lutando por coisas que mais parecem com caprichos pessoais do que de fato uma busca pela igualdade de gênero e gerando coitadismo. São necessários? Claro, mas gerar incômodo colocando crucifixos na vagina e quebrando imagens sacras por exemplo não ajudam em nada a validar a integridade da causa. Mas isso é assunto para outro post.

Mas sou militante do respeito independente de gênero, orientação sexual ou qualquer coisa que preze a liberdade do outro. Milito pelo direito da minha mãe, minha irmã, minha namorada, minhas amigas, enfim, das meninas e mulheres poderem andar na rua sem terem que temer se serão atacadas verbal ou fisicamente, sem serem julgadas por um short ou vestido ("mas você está pedindo!") ou mal faladas simplesmente por terem gostos diferenciados da maioria.

E não escrevo isso tudo direcionando a homens: também quero que as próprias mulheres que ao mesmo tempo são vítimas e algozes dessas afirmações infelizes, dentre muitas outras, entendam que possam ser livres de dogmas e passem a ser capazes de agir do jeito que melhor lhes convier.

Não adianta descobrirmos a cura da AIDS se a gente julga nossa vizinha solteira porque ela gosta de sair e ficar com vários caras, enquanto quando um homem faz o mesmo ninguém não está nem aí. Também faz pouca diferença irmos ao espaço se a roupa que alguém usa continua definindo o que ela é - mesmo sem conhecer sua usuária. O problema mundial com as drogas me parece peixe pequeno quando uma mulher desperta ojeriza simplesmente por ter uma vida sexual livre.

Tem horas, que sinceramente, acho que a doença do mundo realmente somos nós mesmos.

29 de nov. de 2014

Obrigado, Bolaños!

Eu até ia escrever outra coisa, mas não teve jeito: Chespirito tem o seu lugar. Pode parecer um trocadilho nefasto, mas a realidade é que hoje, 28/11/2014, será marcada para sempre como uma Black Friday triste.

Isso isso isso isso!

Há quase uma semana estava meus amigos e eu conversando sobre coisas da nossa infância. Programas, desenhos, games, tudo aquilo que na época marcou a gente de alguma forma que até hoje tem um lugar especial ali no cantinho da nossa maturidade, da juventude que tivemos que abrir mão para trabalhar, ter nosso dinheiro e nossas coisas, enfim, responsabilidades "de adulto". E sempre sai Chapolin ou Chaves no assunto.

Mas ainda lutamos para manter um pedacinho da nossa juventude intacta, e o tanto que é importante ter essa coisa dentro da gente. E assistir os episódios é uma viagem no tempo total, para uma época que a obrigação nossa era simplesmente estudar e comer. Só.

E agora entendi o por quê do dia todo chuvoso...

Mas que inferno, caiu um cisco horrendo no meu olho por conta dessa imagem :(

Foram poucas as situações que estive tão feels por conta da perda de alguma celebridade. Sei lá, Bolaños e sua equipe são mais que isso, acho, marcaram uma geração inteira sem precisar de conotação sexual alguma, nenhum tipo de apelação genérica enlatada qualquer. Sem forçar a barra de nada, sendo despretensioso, simplório, à beira do cru, se quer saber.

Aquilo que a gente na verdade deveria ser, mas acaba nunca sendo.


É gostoso de assistir, de ver aquela coisa tão esdrúxula ser tão fantástica, magnética. Acho que por isso é tão bom: é honesto, direto ao ponto, toca naquela inocência que só depois de tantos anos a gente entende e dá valor - agora, quando praticamente pouco podemos fazer para manter o que ainda nos resta de ingenuidade e leveza.

Risadas de criança. Lágrimas saudosistas também.

Coisa de criança sabe?


Chespirito, obrigado.

Chapolin, obrigado.

E muitos outros personagens menores, mas não menos importantes, obrigado.

Vocês não têm noção do tanto que até hoje são importantes para minha geração - e ainda serão por muitas outras.

Que os deuses da (verdadeira) comédia agora se divirtam com o show ao vivo que dará para eles, Bolaños, porque aqui conosco você foi o cara.

Mas e agora: quem poderá defender?


13 de nov. de 2014

Como uma bunda se tornou mais importante que o universo

Veja bem: uma sonda conseguiu esta semana a proeza sem precedentes de pousar em um cometa. Feito épico, com possibilidade de se estudar mais sobre a origem de toda a vida, envolvendo o investimento de no mínimo um bilhão de dólares e que, se tudo der certo, em algum tempo teremos a análise química da estrutura do corpo celeste fornecendo melhores dicas e possibilidades de estudo sobre o universo que nos cerca.

Imagem feita pela sonda Philae do cometa 67P/, captada na quarta
Mas pra grande maioria das outras pessoas, isso não faz diferença. Temos coisa melhor pra nos preocupar, tipo... uma bunda.


A repercussão das fotos da socialite Kim Kardashian essa semana foi estrondosa. Estrategicamente falando, foi um grande acerto da personalidade, que possui um marketing impecável a ponto de ganhar uma página dupla na Paper e mais de meio milhão de likes no Instagram. Fotos foram feitas milimetricamente estudadas para impactar e até este meu post vai fazer alguns prováveis leitores a procurar mais sobre a atriz - a crítica foi previamente planejada para dar força ao mito. Não é genial?

Tudo previamente preparado a ponto de fazer o pouso pioneiro se tornar... nada. E olha que fomos inclusive capazes de obter sons do tal cometa.

Break the Internet. Bingo.

Perdemos por uma bunda. O viral se tornou nádegas rentáveis minuciosamente arquitetadas para funcionar como se fossem um furor na web.

Não que esteja reclamando de uma bunda. Sinceramente, eu gosto muito de uma. Mas isso só mostrou o foco das pessoas, seu real interesse, o que cada um procura e dá valor quando se abre um navegador e digita um endereço qualquer - provavelmente a fim de bisbilhotar a vida do outro, invejar o sonho alheio como se fosse seu e viver uma infeliz falácia diária.

E a bunda ganha capas de jornais e milhares de cliques rentáveis.

O tal pouso? Uma notinha ali no canto.

Temos toda a possibilidade de mudar de fato tudo aquilo que acreditamos estar errado e sim, criar uma humanidade mais organizada, de forma a diminuir todos os erros primários que estamos cansados de ver todos os dias.

Mas nem preciso comentar onde nós sempre "preferimos tomar", não é mesmo?

14 de out. de 2014

Morte e Vida Cervejinha

"O gosto da saudade é o mesmo da cerveja", ele fala pra si mesmo naquele muquifo acolhedor que decidiu chamar de lar, por alguns minutos, ao anoitecer de toda sexta.

Olhando para o líquido amarelo dentro do copo americano típico, sente o gélido recipiente molhar a ponta dos seus dedos até algumas gotas escorrerem e caírem como bombardeio na toalha de mesa xadrez que recobre a mobília. Sempre às sextas, uma parte dele morre e vive ali.

Sozinho, cada gole da bebida amarga e dourada lhe traz um amor ganho e outro que perdeu, um sucesso e uma falha, uma música e um silêncio, tudo tão intenso que a sensação chega às vezes a lhe arrepiar os cabelos. O local abafado, as milhares conversas paralelas disputando atenção entre si, o cheiro da comida de boteco e as músicas aleatórias da rádio local,  nada disso de fato interfere no diálogo com seu passado, visível somente dentro daquele copo.

Admita: você quer uma delícia dessa agora!

O saudosismo de tudo arranca-lhe um sorriso bobo do rosto, mas é sincero, desejoso de poder voltar no tempo e arrumar algumas coisas aqui e ali - e deixar outras bagunçadas mesmo. Tudo é um caos, ele não sabe se vai sair bem, então pra que se importar?

A cerveja é sua melhor amiga nessas horas. Não reclama, não questiona, escuta seus desabafos mentais e assiste suas engraçadas expressões físicas como uma plateia atenta que acompanha um espetáculo chique. Pensando bem, ela esteve sempre presente na sua vida: o primeiro porre da sua vida começou com duas latinhas (e não sabe o que foi mais inesquecível: o esporro da sua mãe ou a ressaca no dia seguinte); sua primeira namorada ele conheceu depois de uma intensa "cervejada", várias amizades fez e refez nas mesas de bar regradas a fritas, queijo e bacon. Rodas de truco e a velha discussão Raposa x Galo também sempre estiveram aguadas com a graciosa cervejinha.

Morrer e viver no boteco.

Ou viver e morrer na saudade.

Que diferença faz?